3D, Tecnologia, quadrinhos, entrevista com JORGE LUIZ – um bravo soldado na PADA

Divulgue nas mídias sociais

ÍNDICE - ENTREVISTA

JORGE LUIZ, nos anos 90 chega na PADA, sendo a segunda fase da Prismarte, considerando que tivemos 3 fases e depois dos anos 80 zeramos a revista nos anos 90. Tão logo chegou publicou o DESCANSO, uma história de sutil humor social, na Prismarte #04. Antes do hiato de quase 10 anos de ausência da PADA da cena dos quadrinhos Made in PE. Anete desse hiato, Jorge nos deixou duas grandes obras, Heróis e João Ninguém, essa ultima escrita por José Valcir.
No primeiro ano da volta da Prismarte, em 2003, ambas histórias foram publicadas, com objetivo de reavê-lo Jorge no no grupo. Mas não reencontramos o tão nobre soldado, que após mais de 20 anos volta ao grupo com uma fórmula de produção impar, que só lendo a entrevista você vai conhecer e entender.

1- Quem é Jorge Luiz?

Um militar da reserva remunerada do Exército Brasileiro, 59 anos, casado com Maria do Socorro há 33 anos que, após cumprir com sua obrigação, resolveu retomar uma atividade que havia abandonado há vários anos, a de desenhista ou cartunista. No momento também me dedico a estudos na área de modelagem 3D (ainda muito incipiente), além de estudar alguns outros assuntos referentes a programação.

Confesso que, em todas essas atividades que citei anteriormente, ainda me considero um iniciante. Acho que cabe citar que tenho, na área da produção artística, tentado me valer de recursos digitais tais como softwares para edição de imagens etc por meio de uma pequena mesa digitalizadora. De certa forma abandonei os meios de produção analógicos. Isso por diversas razões que não caberia explicar aqui. Enfim, estou tentando retomar, com algumas modificações um caminho que havia  abandonado, há décadas, devido questões profissionais e de carreira.

2 – Quando começou a pensar em fazer Histórias em Quadrinhos?

Para ser sincero, acho que desde criança. Lembro-me desenhar, num banquinho sentado no sofá do quarto, histórias em quadrinhos que eu mesmo criava (claro que eram bem toscas). Desde então venho evoluindo nessa arte, embora sem nenhum incentivo, até chegar aos dias de hoje. Espero ter melhorado bastante, desde então.

3 – Como surgiu seu interesse pelas histórias em quadrinhos, e como passou de leitor a
quadrinista?

É como já disse. Desde que me entendo como gente já fazia algumas tentativas nessa área.
Cada vez que me lembro disso fico pensando que deveria estar bem melhor agora.

4 – Quais foram suas influências?

Página de Heróis, escrito e desenhada por Jorge Luiz

Página de Heróis, escrito e desenhada por Jorge Luiz

Na verdade não saberia dizer ao certo. Na minha juventude lia muito, principalmente aquela literatura chamada de infanto-juvenil. Também lia histórias em quadrinhos, mas nunca pensei em me basear num estilo ou seguir um determinado autor. Acho que era um tanto desligado em relação a essa cultura. Só me interessava fazer os meus desenhos. Talvez uma tendência que possa ter me influenciado fosse a que ocorreu no
fim dos anos setenta, início dos oitenta relativa as séries de filmes tais como “Guerra nas Estrelas”, “Battlestar Galactica”, além de outros. Lembro-me de ter feito algumas histórias utilizando o mesmo formato visual (pelo menos eu tentei).

No entanto, acho que posso citar alguns autores que admiro: Frank Miller (Ronin; Batman, cavaleiro das
trevas, Bill Sienkiewicz (Electra assassina; Demolidor: Amor & Guerra), além de outros.

5 – Antes da P.A.D.A., havia publicado Histórias em Quadrinhos em outro lugar?

Descanso, Publicada na Prismarte #4 dos anos 90 - escrita e desenhada por Jorge Luiz

Descanso, Publicada na Prismarte #4 dos anos 90

Não. Na época em questão eu não sabia nem a quem procurar. Não era como nos dias de hoje em temos que temos acesso à informação, a financiamento etc pela internet.

Na verdade eu desenhava por desenhar, sem muita esperança de divulgar meu trabalho. Houve uma época em que tentei correr atrás disso, mas eu não sabia mesmo como. Além do mais já estava na carreira militar.

Acho que vale destacar que tive algumas obras publicadas no grupo P.A.D.A. Acho que a primeira foi uma HQ intitulada “O descanso”. Esta ocorreu numa tentativa, na época, de lançar uma edição da Primaste impressa para que fosse vendida nas bancas de jornal. A minha era uma das histórias que compunham aquela edição. Não me lembro a época exata desse evento, mas acho que o Milson Marins deve se lembrar. E por falar em Milson, devo destacar aqui sua atuação decisiva sem a qual aquele projeto não teria ido a frente. Temos ainda outras obras: “Os heróis”, se não me engano, “O automóvel” e “João ninguém”. O pessoal da P.A.D.A pode, mais tarde, refrescar nossa memória colocando as datas em alguma nota de rodapé.

6 – Você se vê mais como roteirista ou desenhista?

Se eu tivesse, obrigatoriamente, de escolher uma atividade escolheria desenhista,  embora, até o momento, quase só tenha produzido histórias “roteirizadas” por mim mesmo. Não vejo problemas em pegar um roteiro de terceiros e desenvolver a arte.

João Ninguém, Publicada na Prismarte #08 (2003 -segunda fase) - Roteiro de José Valcir

João Ninguém, Publicada na Prismarte #08 (2003 -segunda fase) – Roteiro de José Valcir e desenhada por Jorge Luiz

Mas desde já aviso gosto de dar palpites e de colocar um pouco da minha visão nas histórias. Afinal de contas é preciso “casar” a linguagem textual de um possível roteiro com a linguagem visual que, na minha opinião, seria o fator preponderante na  confecção de histórias em quadrinhos. Ressalvo, ainda, que não estou querendo menosprezar o trabalho do roteirista. Uma boa HQ deveria ser a combinação entre uma boa história com bons desenhos que trabalhem para contar essa mesma história do modo mais visual possível.


7 – Como vê a tecnologia e as Histórias em Quadrinhos?

Como auxiliar da produção por meio da informática acho excelente. Há diversas facilidades que poderia citar. Uma bem óbvia é a capacidade de desfazer erros (Undo).

Num contexto analógico teríamos que até refazer totalmente um determinado trabalho apenas por causa de uma pincelada incorreta. Também há a questão dos materiais envolvidos tais como pinceis, tintas, pranchetas de desenho etc, que são praticamente eliminados quando se adotam os meios de produção digital. Cabe aqui salientar que isso não implica, necessariamente, em redução de custos. O material de computação é ainda bastante caro. Há ainda outras vantagens que poderia citar, mas, resumidamente falando, o equipamento digital é mais cômodo e mais adaptado ao mundo informatizado de hoje. No que se refere ao quesito vantagens. Como desvantagem posso citar, pelo menos de minha parte, a dificuldade de adaptação ao desenho na mesa digitalizadora cujo emprego ainda me traz alguns problemas.

Heróis, Publicado na Prismarte # 04 e 05 (2003) - 2 fase)

Quadro de Heróis, Publicado na Prismarte # 04 e 05 (2003) – 2 fase)

Ainda faltou falar na tecnologia como fomentadora de outras mídias que concorrem com as histórias em quadrinhos. Penso que os quadrinhos surgiram no passado num contexto em que elas eram um dos poucos produtos que existiam na área de produção artística popular. Então elas não competiam com outros meios. Quem consumia HQs tinha um perfil diferente de quem lia revistas de notícias ou jornais ou assistia filmes
no cinema (Essa é uma forma bem resumida de falar, pois sabemos que não teria de  ser necessariamente assim).

Atualmente, com a modernização dos meios de produção artística e com o desenvolvimento da computação gráfica, penso que surgiram outras mídias as quais podem competir bastante com as HQs feitas de modo tradicional. Elas teriam um apelo visual mais intenso. Como exemplo poderíamos citar os vídeos curtos que abundam na internet, as animações desenvolvidas por computação gráfica. Dá para se perceber que poucos têm paciência para ler boas histórias ou artigos com maior profundidade. Todos querem a informação rápida e resumida.

Poderíamos dizer que há uma espécie de preguiça mental e, infelizmente, acho que esse pode ser um fator negativo para a produção das HQs. Desculpem-me por essa resposta um pouco longa, mas esse é um assunto relativamente complexo e minhas afirmações, segundo alguns poderiam dizer, carecem de fundamentação acadêmica. A esses eu devo dizer “Vão se Ferrar”. No final acho que a conclusão me parece óbvia: temos que nos adaptar. É uma regra da natureza, inclusive. Outra questão seria “como vamos fazer isso?”. Bem, essa é outra história.

8 – Você tem uma veia cômica muito refinada e uma queda para a Ficção Científica, como
consegue equilibrar coisas tão antagônicas em seu trabalho?

Eu não enxergo bem assim. Acho que uma coisa não exclui, necessariamente, a outra.
São duas vertentes que podem ser exploradas até de maneira simultânea em uma mesma obra. Poderíamos fazer histórias de ficção científica com alguns toques de ironia. Afinal vi em algum lugar que a ficção científica pode ser uma forma de expor ou mesmo criticar tendências em uma sociedade. Nada impede de abordarmos certas questões, tais como uma possível idiotização das pessoas em decorrência da expansão e da larga (má)utilização e massificação das mídias sociais de um modo irônico.

Lembro-me de ter assistido a um filme, que apesar de não se enquadrar perfeitamente na classificação de ficção científica, veio-me à memória nesse momento: “Idiocracy”.

9 – No seu novo projeto em fase de conclusão, poderia falar um pouco sobre ele?

Modelagem 3D como recurso na confecção dehistórias em quadrinhos.

Modelagem 3D como recurso na confecção de histórias em quadrinhos.

Obrigado por perguntar.

Já faz alguns meses, estava relendo um certo livro de ficção científica de Arthur Clarke – Do Outro Lado do Céu – quando tive a ideia de tentar fazer uma história em quadrinhos baseada numa das histórias contidas nesse livro. Para resumir, após algumas dificuldades, acabei escolhendo uma intitulada “Verificação de Segurança”.

Nessa história empreguei algumas técnicas que jamais havia utilizado antes. Resolvi fazê-la utilizando, além dos meios digitais, softwares de modelagem 3D para construir os cenários e as ambientações dos quadrinhos. Por cima desses cenários faria o desenho dos personagens envolvidos. A conclusão dessa história é bastante interessante.

Espero tê-la contado de modo satisfatório. É claro que fiz algumas adaptações aos dias atuais, já que a história original se passa na década de 1950. Enfim acho que vale a pena ver.

Mesclando elementos de cenário em 3D com o desenho dospersonagens.

Mesclando elementos de cenário em 3D com o desenho dos personagens.

Eventualmente penso em fazer uma resenha, contando mais detalhes sobre o processo criativo e de produção desse projeto. Se fosse descrevê-los agora a resposta a essa pergunta ficaria realmente muito longa.

O que importa, agora, é que esse projeto foi feito de um modo bastante inovador, pelo menos para mim.

10 – Com o surgimento da Inteligência Artificial (I. A.), qual futuro dos ilustradores, e da produção em geral das Artes?

Infelizmente, neste momento, não estou de posse da minha bola de cristal. Por isso não tenho como responder com exatidão.

Brincadeiras a parte, se me permitirem, posso dar uns palpites.

Imagino que muitas pessoas que estariam procurando profissionais para desenvolveram projetos na área áudio visual poderiam encontrar uma forma gratuita de ter suas demandas atendidas. Em consequência, isso causaria uma desvalorização dos trabalhos desenvolvidos por esses profissionais. Isso partindo do princípio de que a IA possa fornecer esse material de forma gratuita ou por um custo muito baixo, o que,
a princípio, para mim, é difícil de acreditar. Então, tendo como base essa possibilidade, poderia dizer que os prognósticos são um pouco pessimistas. No entanto tenho visto/ouvido algumas pessoas dizerem que a IA não vai tomar tanto espaço assim.

Espero estar errado. Sei, no entanto, que quando uma nova tecnologia surge, há um período de adaptação em que a antiga e a nova convivem. Afinal quem sou eu para tecer qualquer análise sobre esse assunto. Para isso existem os famosos especialistas. A verdade é que são muitas variáveis para levar em consideração para responder a essa pergunta. Talvez possamos fazer essa mesma pergunta a IA.


11 – Quais seus planos para as histórias em quadrinhos, em termo de roteiro e desenho?

Depois que terminar o projeto atual, planejo, a princípio, refazer uma antiga história cujo material, apesar de terminado, foi perdido. Pretendo refazê-la utilizando o mesmo conjunto de técnicas utilizadas para criar a HQ Verificação de Segurança. Isso tendo em vista o propósito de me adaptar às novas tecnologias. Como projeto de mais longo prazo gostaria de desenvolver animações em 2D e em 3D. Isso depende de
recursos financeiros para aquisição de equipamento de informática.


12 – Aos aspirantes em tornar-se quadrinistas, quer deixar alguma mensagem?

Tendo em vista que eu não sou ainda um autor reconhecido ou de sucesso, eu não sei se tenho alguma moral para dar mensagens, muito menos conselhos nessa área. Mas me ocorreu, após responder algumas perguntas desta entrevista, algo que poderia ser interessante citar: desenvolver a capacidade de se adaptar e de se reinventar. Acho que isso só ocorre quando você realmente gosta do que faz. Então, antes mesmo da
capacidade de adaptação, devo dizer que o mais importante é gostar do faz. Acredito que isso pode dar força para superar as dificuldades que certamente surgirão.


13 – Como foi o processo criativo para capa da Prismarte 71? E sua experiência como capista,
já que é a primeira que realizou?

Para ser franco, eu não esperava fazer essa capa. Lembro-me que havia, no grupo do WhatsApp da P.A.D.A., uma discussão a esse respeito debatendo ideias para capa tendo por base a história que seria o carro-chefe dessa edição. Vi algumas ideias e confesso que não fiquei muito satisfeito. Apresentei, então, a minha sugestão (um esboço bem tosco). Ao que parece ela foi aceita, mas eu ainda não estava achando que
faria esse trabalho. Com a evolução desse tema, se não me falha a memória, fui apresentando algumas sugestões de imagens que poderiam ser utilizadas na mesma, bem como outras sugestões técnicas que poderiam ser empregadas. Foi quando alguém mencionou que eu estaria já fazendo essa capa. Quando percebi que estava encarregado dessa missão. Pelo menos, em minha mente, foi assim que aconteceu.

Quanto a experiência em si, de certa forma é como fazer um quadrinho. Você tem uma ideia que quer passar e reúne os recursos para atingir esse objetivo. No entanto, o fato de ser uma capa requer algumas tarefas adicionais: ela tem de trazer um “gancho” para atrair o leitor e tem de ter, ainda, o espaço para colocação dos títulos e coisas do gênero. Além disso devo dizer que a sensação de ter uma revista cuja capa foi criada
por mim é bastante boa.

Entrevista: José Valcir

Serviço:
PRISMARTE #71 – HERDEIROS DA TERRA
Capa: colorida
Páginas: 32 páginas P&B
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