Entrevista com Eduardo Schloesser, criador do Zé Gatão

bureaudeimagens.com.breduardoschloesserEduardo Schloesser é ilustrador e quadrinista, criador do personagem Zé Gatão. Seu traço forte, inspirado por artistas como Bernie Wrightson e Richard Corben, e suas histórias filosóficas e violentas, fazem dele um dos autores nacionais mais originais de todos os tempos. Além dos 3 álbuns do Zé Gatão publicados por grandes editoras nacionais, Eduardo Schloesser já produziu diversos livros ensinando a desenhar e fez ilustrações para livros como “Lira dos 20 anos”. Eduardo Schloesser está relançando o álbum GRAPHIC PADA ZÉ GATÃO através de uma campanha numa plataforma de financiamento coletivo (uma espécie de vaquinha virtual) chamado catarse no endereço: https://www.catarse.me/graphic_pada_ze_gatao.

 

1) Para quem não conhece ainda, fale-nos um pouco sobre o Zé Gatão.

Vivendo num universo antropomorfo (animais humanizados), o personagem título é um gato mestiço de lince que luta para sobreviver num mundo implacável e caótico. Ele é soturno e com problemas de adaptação, não venceu na vida, tem o utópico desejo de ter um emprego fixo, uma companheira e viver longe da pressão cotidiana. É basicamente isto.

2) Seu trabalho como Zé Gatão é bastante visceral e polêmico. A violência e o sexo chegam a ser explícitos, chegando a incomodar os mais puritanos ou sensíveis. O que o leva a inserir elementos tão “pesados” em suas histórias? Você os julga realmente necessários?

ze-gatao-pb-1-400-pxMinha proposta quando iniciei esta série era retratar o mundo conforme eu o via (e sentia) sem maquiagens, não poupando o leitor, se ele estivesse afim de algo “suave e engraçadinho” que fosse ler as histórias do Bidu. Preciso sublinhar que nunca fiz hqs para agradar ao público, e sim usar a narrativa gráfica como uma catarse, um meio onde eu pudesse berrar a plenos pulmões cada vez que algo na minha própria vida me incomodava, uma forma de extravasar minhas frustrações, na minha cabeça é algo que se aproxima da teoria do “Grito Primal” do Arthur Janov. Já reparou que na maioria dos crimes violentos tem sexo envolvido? Daí o porque d´eu raramente separar uma coisa de outra.
Se julgo necessário? Não, necessário não é, mas eu me identifico mais com os filmes do Quentin Tarantino que os do Frank Capra.

3) Por outro lado, Zé Gatão também vai fundo na discussão filosófica da procura do eu e na denúncia de problemas sociais como pobreza, truculência policial, corrupção e, até mesmo, falta de educação nas grandes cidades. Por que tocar nesses assuntos em uma história onde a ação é o principal chamariz?

Como já disse, uso os quadrinhos (embora pareça presunção da minha parte) como uma forma de terapia. Inserir os temas que você citou em minhas aventuras seria algo natural, pois são coisas que me estarrecem. Quanto “a procura do eu” é algo que acrescento de forma meio instintiva. Embora eu faça minhas hqs para mim mesmo, há sempre alguém que se identifica, que grita de volta, a presença de alguma filosofia (ainda que barata) existente em Zé Gatão é uma forma de me comunicar com aqueles que veem meu trabalho como um espelho.

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4) Quais são seus mestres e quais as suas fontes de inspiração?

Muitos, vão de Gustave Doré aos ilustradores americanos da “golden age”, mas sempre repito que o trio que serve de base para o meu trabalho, são Richard Corben, Bernie Wrightson e Tanino Liberatore.

5) Quais os trabalhos que você está envolvido no momento?

O que tem colocado comida na mesa (desde sempre) são as ilustrações para livros; a mais de três anos tenho criado imagens para os clássicos da literatura brasileira para uma editora de Recife, paralelo a isto, crio álbuns e manuais de desenho para editoras de São Paulo. Nos quadrinhos estou trabalhando numa biografia do poeta americano Edgar Alan Poe roteirizado por Rubens Lucchetti, mas infelizmente tive que interrompe-la momentaneamente por falta de tempo, devo recomeça-la assim que minha vida serenar um pouco.

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6) Como você avalia o cenário Nacional atual? E quais são os nomes que merecem destaque?

Não há resposta fácil, os quadrinhos aqui se parecem muito com o próprio Brasil, está crescendo, muitas mudanças pra melhor, a maioria dos gringos já sabem que existimos (e não só por causa do Pelé e do café como era antigamente), tudo muito bonito e tals, mas para o cidadão comum, que acorda cedo, pega ônibus, trabalha duro por seu salário (que nunca acompanha o aumento das coisas) o cenário parece sempre ser o mesmo. Ano passado tivemos recordes de publicações, inclusive eu, com dois álbuns de Zé Gatão. O problema pra mim é que a maioria foi de independentes. Romanticamente falando é muito bonito, mas ainda não temos um mercado.
O material independente, com raríssimas exceções, é algo que atinge poucas pessoas, geralmente da sua própria tribo, e isto não permite ao autor viver deste ofício. Estamos avançando, diriam os mais otimistas! Sim, de fato, mas avançando pra onde? Há anos estamos nesta luta, e se 2011 foi profícuo para as hqs nacionais, o mesmo não pode se dizer de 2012, se não estou enganado. Não parece haver uma evolução no quadro, mas uma parada para recuperar o fôlego, e sabemos o que acontece quando o atleta para pra respirar, ele perde o pique. O que sobra no final são sempre os mesmos no pódio, aqueles bem aventurados com recursos para emplacar seus trabalhos aonde o mercado ainda sobrevive, como nos EUA, por exemplo. Estes mesmos já tem destaque demais para que eu cite seus nomes, prefiro falar daqueles que batalham a muitos anos sem o mesmo reconhecimento. Sou um fã do pessoal da velha guarda, como Júlio Shimamoto, Sebastião Seabra e Artthur Garcia, mas pra mim, atualmente, disparado, o maior autor brasileiro é o Nestablo Ramos Neto.

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7) E o Nordestino (e mais especificamente, o Pernambucano)?

Pelo Facebook tive contato com um rapaz muito bom chamado Allan Goldman, arte sensacional, o cara é muito bom! Aqui em Pernambuco gosto dos traços do Wamberto Nicomedes e Rael Lira, mas meu destaque vai para o Luciano Félix, é raro um desenhista com talento pro humor ter uma narrativa gráfica e design de página tão brilhante como ele expressa em seu trabalho. Como roteirista, algo ainda pouco destacado no meio, eu gosto do Léo Santana.

ze-gatao8) Muita gente já deve ter lhe perguntado se o Zé Gatão era um alter-ego seu. O que você diria para essas pessoas?

Acho que todo autor coloca muito de si em seus personagens, mas no meu caso e de Zé Gatão isto é escancarado, as coisas que disse acima sobre o personagem parecem muito com minhas próprias características, principalmente quando era solteiro e andava mais perdido. Porém, o que posso dizer é que eu o uso para coisas que nunca tive coragem de falar ou fazer.

9) Quais os artistas ou grupos que você destacaria no cenário Nordestino como de relevante importância para os Quadrinhos Nacionais (Sejam produzindo ou incentivando os quadrinhos e artistas nacionais) ?

A PADA tem realizado um trabalho hercúleo no sentido de promover e publicar as hqs aqui em Pernambuco, aliás, não conheço outro grupo que faça algo semelhante em qualquer outro lugar do Brasil.

10) Quais os projetos para esse segundo semestre de 2012 e para o próximo ano?

memento-moriA Devir promete para este ano ainda a continuação de Zé Gatão-Memento Mori, há também um outro álbum totalmente fora do universo Zé Gatão, pronto já, desde 2004, esperando um momento apropriado para oferecer ás editoras (não sei se será bem aceito, pois é muito truculento e recheado de cenas de sexo), além da já citada bio do Poe. Se tudo isto dará as caras o ano que vem, só Deus sabe.

11) Como você definiria o Eduardo Schloesser e seu trabalho?

Sinceramente? Como um animal em extinção, tanto na forma como vejo o mundo, como na forma de executar meu trabalho.

12) Você tem algum sonho ou objetivo que ainda espera alcançar?

Desde que comecei neste meio, em 1986, em Brasília, e principalmente no início dos anos 90, quando retornei a São paulo, eu tinha grandes expectativas em relação as artes. A maioria foi frustrada. Tive algumas realizações, poucas me trouxeram o retorno financeiro tão sonhado. Hoje, chegando aos 50 anos, não me dou ao luxo de esperar nada além do que o que tenho conquistado.
Não posso reclamar, penso que meu trabalho é pouco comercial e mal divulgado, ainda assim publiquei quatro álbuns de Zé Gatão, várias histórias eróticas, diversas revistas de passo a passo de desenho e quatro álbuns de anatomia, dois deles esgotados.
Há quem diga que meu antropomorfo teria boa aceitação no mercado gringo, ainda não queimei este cartucho e nem sei bem como faze-lo, mas está na pauta, assim que tiver mais tempo livre.
Ainda espero poder escrever e desenhar uma última saga de Zé Gatão para por um ponto final na saga do personagem, e também criar um álbum com algumas histórias do cotidiano que a anos pedem pra sair da minha cabeça. Veremos.

13) Espaço Livre: Fique agora a vontade para dizer o que quiser para os leitores dessa sua entrevista:

Aos que não me conhecem, procurem pelo que já produzi, pode ser que vocês gostem e entabulemos uma amizade, ainda que através da magia autor, trabalho, leitor, ou mesmo face a face, quem sabe?
Aos que que já leram as bobagens que escrevo e desenho, por seu prestígio e paciência, a minha gratidão.

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Observação: Esta entrevista foi concedida em 2012, na ocasião do lançamento da primeira tiragem da GRAPHIC P.A.D.A. ZÉ GATÃO.

Abaixo, uma galeria com alguns trabalhos de Eduardo Schloesser:

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