O desenhista brasileiro no mangá japonês



O desenhista brasileiro Angelo Vasconcelos Levy, 33, ganha pouco, trabalha muito, mas não reclama. Há pouco mais de 9 anos ele trocou Belo Horizonte (MG) para tentar a sorte na capital japonesa e, após muita insistência, conseguiu entrar no concorrido mercado de quadrinhos japoneses, os famosos mangás.

“O sonho de ser desenhista de mangá no Japão é como querer ser jogador profissional de futebol no Brasil”, diz o brasileiro, que adotou o codinome de Angelo Mokutan – “mokutan” significa carvão em japonês, que é o sobrenome do pai, Ricardo Carvão Levy, também artista.

A comparação feita pelo brasileiro, na verdade, não tem nada de exagero. Segundo dados da Associação Japonesa de Papel, os mangás representam por volta de 40% do material impresso no Japão. É um mercado que movimenta perto de US$ 3,6 bilhões (mais de R$ 14 bilhões) em vendas por ano.

No Japão, pessoas de todas as faixas etárias têm o costume de ler este tipo de publicação. Temas sérios, como história mundial, manuais de equipamentos e maquinários, clássicos da literatura e até a Bíblia têm suas versões em quadrinhos.

No caso de Angelo, ele publica as histórias na President Next, revista voltada para a área de business e economia, e com foco no público jovem. “Toda edição tem um grande tema, que é apresentado em forma de quadrinhos”, explica.

Longo caminho

bbc_brasilAngelo, que começou a aprender japonês aos 14 anos, fez o mestrado em animação no Japão e, na sequência, conseguiu um emprego na área de tecnologia da informação. “Nas horas vagas eu produzia meus trabalhos e participava de feiras para publicações independentes”, conta.

O artista produziu três obras, uma trilogia dentro de um projeto chamado Era uma vez em Tóquio, na qual adapta contos clássicos da literatura infantil. A primeira foi Chapeuzinho Vermelho, seguida de Iara e Fábulas de Esopo.

Foi nestas feiras que ele conheceu seu atual chefe, um editor que buscava novos talentos e que achou o trabalho do brasileiro diferente e interessante.

Angelo conta que hoje existem poucos estrangeiros no mercado de mangá no Japão. “Isso acontece por causa do sistema, que não é flexível; as editoras são bem tradicionais e não trabalham com reuniões virtuais e desenhistas que moram longe”, diz.

“Além disso, existem certos elementos da cultura japonesa que são muito valorizados e é preciso conhecer a fundo esses detalhes e ter contato com esse mundo”, completa o brasileiro. “Sem contar, é claro, o idioma.”

No entanto, Angelo afirma que no Japão é até relativamente fácil começar como profissional de quadrinhos. “No mundo ocidental você envia um trabalho para uma editora e muitas vezes nem tem resposta. Aqui, você pode ligar para a empresa e pedir para marcar um horário para apresentar seu trabalho”, diz.

Segundo ele, o problema é apenas o salário. “A remuneração não é nem um pouco boa, por causa dessa competição acirrada”, diz. Mas o sucesso financeiro existe quando as obras são adaptadas para a animação, games ou filmes, além dos produtos de merchandising.

Quadrinhos

A palavra mangá, em japonês, significa “desenhos irreverentes”. Surgiu em 1814, primeiramente como ilustrações e caricaturas sobre a cultura japonesa.

Em 1947, a primeira historinha publicada foi Shin Takarajima (A Nova Ilha do Tesouro), de Osamu Tezuka, desenhista conhecido no Japão como “Deus do Mangá”.

Foi Tezuka quem definiu as características dos quadrinhos japoneses, como expressões faciais exageradas, elementos metalinguísticos – como as onomatopeias – e enquadramentos que dão um impacto emocional maior.

A “era de ouro” dos quadrinhos foi entre os anos de 1985 e 2000, quando algumas publicações chegavam a vender mensalmente 5 milhões de cópias.

Depois, com o avanço da internet, a crise econômica e a pirataria derrubaram as vendas para quase a metade. Mesmo assim, continua sendo um mercado lucrativo.

Para tentar recuperar as vendas, as editoras passaram a exportar muitas das obras para os países ocidentais. Os maiores consumidores no exterior são hoje os Estados Unidos, França e Alemanha. Mas o Brasil também tem se mostrado um grande filão para o segmento.

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